Saudi Aramco procura armazenar seu petróleo no exterior

A Saudi Aramco está conversando com governos estrangeiros sobre o uso de suas reservas estratégicas de petróleo, disse o diretor-presidente Amin Nasser, enquanto o maior exportador de petróleo do mundo busca formas de manter o fluxo de cru quando sua própria infraestrutura é atingida. As discussões, noticiadas na quinta-feira, permitiriam à Aramco armazenar petróleo nas reservas de emergência de outros países e recorrer a esses tanques para atender clientes se as instalações sauditas forem perturbadas.
A medida segue uma série de ataques à infraestrutura petrolífera saudita. Em setembro, um ataque de drone paralisou por vários dias o oleoduto mais importante do reino, segundo as autoridades sauditas. Na quarta-feira, o campo petrolífero de Shaybah, da Aramco, e o aeroporto de Dammam foram atacados, com duas mortes em cada local. O campo de Shaybah fica no Rub al-Khali, o vasto deserto no sudeste do país, e é um dos maiores ativos de produção da empresa.
As reservas estratégicas de petróleo são estoques mantidos por governos, geralmente para emergências nacionais. Países como Japão, Coreia do Sul e membros da Agência Internacional de Energia mantêm centenas de milhões de barris em cavernas subterrâneas e parques de tanques. O acesso a essas instalações daria à Aramco um amortecedor longe do Golfo, permitindo entregar petróleo a compradores asiáticos e europeus mesmo se os terminais de carregamento ou oleodutos em seu país forem danificados.
A ideia se encaixa em uma mudança mais ampla na forma como os produtores de petróleo pensam a segurança do fornecimento. Durante décadas, os importadores acumularam reservas para se proteger de cortes dos exportadores. Agora, um exportador quer usar essas mesmas reservas como rede de distribuição. A Aramco há muito mantém instalações de armazenamento e mistura no exterior, incluindo nos Países Baixos, Japão e Estados Unidos, mas são tanques comerciais, não reservas governamentais.
Para os compradores, o atrativo é a continuidade. As refinarias asiáticas, que absorvem a maior parte do cru saudita, estão acostumadas a contratos de longo prazo com volumes mensais estáveis. Qualquer interrupção as obriga a buscar cargas no mercado spot, muitas vezes a preços mais altos. Se a Aramco puder manter barris nos países importadores, conseguirá cumprir os prazos das entregas contratuais e suavizar os picos de preços que se seguem aos ataques.
As conversas também ocorrem quando os produtores do Golfo enfrentam uma vizinhança mais conturbada. A marinha da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã alertou esta semana que poderá ampliar seu confronto se os navios continuarem usando o que chamou de rotas ilegais pelo Estreito de Ormuz, a estreita via pela qual passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Um alto funcionário de segurança iraniano disse que a situação atual pode trazer turbulência prolongada aos mercados de energia nos próximos três anos. Os Estados do Golfo, acrescentou, estão redefinindo rapidamente suas relações com o Irã.
A Arábia Saudita também tem sido atingida pelo sul. A coalizão liderada pelos sauditas disse ter interceptado e destruído um drone sobre Riade, a capital, esta semana. Ataques vindos do Iêmen têm visado repetidamente aeroportos e instalações petrolíferas do reino nos últimos anos, incluindo a paralisação do oleoduto em setembro.
A Aramco não nomeou os governos com os quais negocia nem disse quanta capacidade de armazenamento busca. As ações da empresa, como as de outras grandes petrolíferas, têm sido sensíveis a manchetes sobre risco de fornecimento. Para os traders globais de petróleo, a questão prática é se as reservas estrangeiras podem ser usadas com rapidez suficiente para importar durante uma crise, e se os países importadores estão dispostos a permitir que um produtor estrangeiro deposite seus barris em instalações construídas para suas próprias emergências.
Os comentários de Nasser sugerem que a Aramco vê o armazenamento no exterior como uma forma de seguro, e não como substituto de seus próprios tanques. A empresa já opera um dos maiores sistemas de armazenamento do mundo dentro da Arábia Saudita, incluindo os enormes terminais de Muajjiz e Yanbu. Estender essa rede além das fronteiras tornaria as exportações do reino mais difíceis de sufocar, mas também ataria mais estreitamente seu destino comercial às políticas dos governos anfitriões.
Por ora, o plano permanece em fase de discussão. O que está claro é que os ataques levaram a maior petrolífera do mundo a repensar onde guarda seus barris de reserva.