Um restaurante de Chengdu vende o porco cozido duas vezes por fatia, e a China debate

Um prato de porco cozido duas vezes, ou huiguorou, é um dos mais familiares da cozinha de Sichuan: barriga de porco cozida, cortada em fatias finas e depois salteada com pasta de feijão picante, brotos de alho e um pouco de açúcar até as bordas se enrolarem. É o tipo de comida que as famílias chinesas preparam em casa e os restaurantes servem sem cerimônia. Agora, um restaurante de Chengdu, a capital de Sichuan, colocou o prato no centro de uma polêmica ao vendê-lo por fatia: 35 yuans cada, com pedido mínimo de três.
O detalhe que circulou mais rápido na internet foi o mínimo. O cliente não pode comprar uma fatia para provar; a cozinha prepara três ou mais, o que faz o pedido mais barato desse único prato chegar a 105 yuans, cerca de 15 dólares. Para um prato feito com um corte barato de porco, esse número pareceu menos um preço do que uma declaração, e as seções de comentários se encheram de gente fazendo a conta em voz alta.
Parte da reação é puro susto com o preço. A barriga de porco não é ingrediente de luxo, e o porco cozido duas vezes é um prato de referência em toda Sichuan e além, aquilo pelo que se julga um cozinheiro antes de chegar algo mais sofisticado. Quando um restaurante o cobra por fatia, os clientes o comparam instintivamente com o prato que fazem em casa ou pedem por um terço do preço num boteco de bairro.
A outra parte tem a ver com o que a fatia representa. Vender por unidade transforma um prato compartilhado e informal em uma porção quase de menu degustação, e os clientes chineses logo leem essa mudança como uma afirmação sobre qualidade. Os defensores do restaurante argumentam que uma fatia mais grossa, melhor aparada e feita na hora custa mais para ir ao prato do que um monte de fatias finas, e que um preço por fatia é ao menos honesto sobre o que o cliente recebe.
O debate chega ainda em um ano em que os clientes chineses estão incomumente atentos aos preços da comida. De macarrão a chá com leite e cafés da manhã de hotel em feriados, discussões sobre se algo vale o preço viraram presença constante nas redes sociais do país, e um único prato pode carregar o humor de toda uma temporada de refeições fora de casa.
O que faz o caso do porco cozido duas vezes perdurar é que ele não é realmente sobre porco. É sobre a linha entre um prato caseiro e um produto de restaurante, e sobre quem pode redesenhá-la. Um preço por fatia é um pequeno experimento de economia de restaurante, mas pede aos clientes que aceitem uma nova unidade de medida para algo que achavam já entender.
Para um leitor global, o episódio lembra que os preços da comida na China são discutidos em público, em detalhe e com números, e que um prato caseiro pode funcionar como uma espécie de termômetro cívico. Se o modelo por fatia se espalha ou fica como curiosidade em uma cozinha de Chengdu dirá algo sobre até onde os clientes chineses seguirão um restaurante que redefine um prato familiar.