Banco central da China cria um corta-fogo para corridas a fundos de títulos

O banco central da China desenhou uma nova ferramenta para um problema que se tornou familiar em seu mercado de títulos: o que acontece quando milhares de investidores de varejo correm para a saída ao mesmo tempo. Em 26 de outubro, o Banco Popular da China anunciou o Mecanismo de Swap para Instituições Financeiras Não Bancárias do Mercado de Títulos, conhecido como BNSF, voltado às instituições financeiras não bancárias que hoje dominam a negociação de dívida pública e corporativa chinesa.
O mecanismo é estreito por concepção. Só é ativado no que o banco central chama de cenários específicos, quando gestores de ativos enfrentam estresse de liquidez coletivo e o mercado de títulos sofre pressão sistêmica. Nesse momento, o mecanismo apoia instituições cuja falência teria amplas repercussões, principalmente subsidiárias de gestão de patrimônio de bancos e gestoras de fundos mútuos públicos, ou seus bancos e corretoras controladores.
A ascensão dos investidores não bancários em títulos chineses explica o momento. As áreas de gestão de patrimônio dos bancos e os fundos mútuos tornaram-se alguns dos maiores detentores de títulos chineses, financiados em grande parte por dinheiro de curto prazo de poupadores de varejo. Quando os rendimentos caem, esses produtos parecem atraentes e o dinheiro entra em massa; quando os preços oscilam, os resgates podem forçar os gestores a vender os próprios títulos que detêm, amplificando o movimento. Um fundo que precisa vender para atender saques pode desencadear novas quedas, que por sua vez provocam mais resgates.
O mecanismo é um swap, não uma doação. Instituições elegíveis trocariam ativos por dinheiro ou garantias líquidas de forma temporária e reverteriam a operação depois. Essa estrutura mantém o banco central à distância de empréstimos diretos a fundos e limita o risco que ele assume em seu próprio balanço. Também lhe dá uma forma de injetar liquidez em cantos do mercado que suas ferramentas de empréstimo existentes, construídas em torno dos bancos, alcançam apenas indiretamente.
O desenho traz trade-offs. Uma rede de proteção generosa demais pode incentivar gestores de fundos a assumir apostas de duration maiores, supondo que a ajuda chegará quando uma operação der errado. Uma rede condicionada demais pode chegar depois que a corrida já causou o dano. As autoridades parecem buscar o meio-termo: um mecanismo crível o bastante para acalmar os mercados num episódio de estresse, mas condicionado o bastante para que ninguém construa um modelo de negócios em torno dele.
Para investidores globais, o sinal importa mais que a mecânica. Os rendimentos dos títulos chineses tornaram-se um ponto de referência para quem avalia ativos em renminbi, e as participações estrangeiras em dívida pública chinesa cresceram na última década. Uma ferramenta que suaviza episódios de vendas forçadas pode facilitar manter o mercado durante a volatilidade, embora não altere o quadro subjacente de crédito ou crescimento.
O que vem a seguir depende sobretudo da calibragem. Os mercados observarão se o banco central publica detalhes operacionais, como quais instituições se qualificam como sistemicamente importantes, que garantias são aceitas e com que descontos. Esses parâmetros determinarão se o mecanismo funciona como um verdadeiro disjuntor ou apenas como uma declaração de intenções. Por ora, o próprio anúncio é a mensagem: Pequim decidiu que os ciclos de resgate da indústria de fundos são uma questão sistêmica que merece seu próprio corta-fogo.