Uma torre de templo da dinastia Qing que rachou mas não caiu

Entre as milhares de fotografias antigas que circulam nos fóruns de história chinesa na internet, uma volta sempre: uma pagode quadrada de tijolos em Pengzhou, Sichuan, fotografada por volta de 1911 por um americano chamado Luther Knight. A torre está visivelmente partida, os andares superiores inclinam-se separados, e no entanto permanece de pé. Os leitores chineses chamam-lhe «a torre rachada que não caiu».
A pagode pertence ao Templo Longxing, fundado na dinastia Jin Oriental em 337 e conhecido por vários nomes antes de o imperador Tang Xuanzong lhe dar o atual em 718. O templo foi suprimido em 845, reconstruído em 848 por um monge chamado Yuzhi, e a torre de tijolos ergueu-se por essa altura. É uma estrutura de catorze lados e dezassete andares do tipo que os historiadores da arquitetura chinesa chamam de beirais densos, com um sino de bronze em cada um dos seus sessenta e oito cantos. Knight, que viveu de 1879 a 1913, estava em Sichuan com uma câmara numa altura em que poucos estrangeiros o faziam.
A fotografia importa porque capta um edifício em pleno processo de falha. Torres de tijolos deste tipo eram construídas sem aço, contando com o peso e a fricção de alvenaria cuidadosamente cortada. Quando o solo se move, ou as fundações assentam de forma desigual, a estrutura pode partir-se ao longo de uma costura vertical e ainda assim aguentar, cada metade escorando a outra. Os engenheiros que estudam alvenaria histórica chamam ao efeito ruína estável: o edifício encontrou um novo equilíbrio, só que não o que os seus construtores pretendiam.
A pergunta por baixo da fotografia é aquela sobre a qual os fãs do património chinês discutem constantemente: se visitar os sítios antigos cedo, antes de a reparação, o desenvolvimento ou o simples abandono os alterarem. A frase «visite as antiguidades enquanto ainda pode» é uma piada recorrente nestes círculos, e é só meia piada. Um templo que sobreviveu a uma purga do século IX e a um terramoto do século XX ainda pode perder-se para um projeto rodoviário, uma restauração desastrada ou uma década sem ninguém olhar.
A torre do Templo Longxing foi reparada mais de uma vez, e os visitantes de hoje veem uma estrutura estabilizada em vez da ferida no negativo de Knight. Esse é o resultado comum, e não é um escândalo. O problema mais difícil é o caso oposto: as centenas de sítios mais pequenos e menos fotogénicos que ninguém fotografou, catalogou ou financiou, e que desaparecem sem uma imagem de antes.
O próprio Knight faz parte da história. Morreu em 1913, e as suas placas de vidro ficaram armazenadas durante décadas antes de serem impressas. A sobrevivência de um edifício e a do seu registo revelam-se acidentes separados. A torre manteve-se de pé porque a sua alvenaria resistiu. A imagem sobreviveu porque alguém guardou uma caixa.
Para um leitor global, o apelo não é exótico. Todos os países com edifícios antigos enfrentam o mesmo compromisso entre congelar uma estrutura e deixá-la envelhecer, e todos os países têm fotografias que mostram o que se perdeu. O que torna o caso chinês vívido é a escala: uma tradição construtiva contínua de mais de mil anos, um século de convulsões e agora um grande público amador que trata as fotografias antigas como prova.
A próxima coisa a observar é mais silenciosa do que um desabamento. Observe quantos destes sítios menos conhecidos obtêm um registo público — um levantamento, uma fotografia, uma classificação — antes de alguém precisar de discutir se os deve salvar.