Mercado de motocicletas da China se recupera após duas décadas de queda

Durante duas décadas, a motocicleta chinesa pareceu um negócio em declínio. As vendas internas atingiram o pico de 27,5 milhões de unidades em 2008 e depois caíram ano após ano, pressionadas por restrições municipais ao uso de motos e pelo apetite crescente por carros e veículos elétricos de duas rodas. Analistas e veteranos do setor deram a categoria como morta, um vestígio de uma era mais pobre.
Este ano, os números contam outra história. No primeiro semestre de 2026, as vendas de motocicletas a combustão na China chegaram a 2,6496 milhões de unidades, alta de 2,09% em relação ao ano anterior, segundo dados do setor. É um ganho modesto, mas marca uma reversão em um mercado que encolhia há tanto tempo que poucos esperavam que voltasse a crescer.
O verdadeiro motor são as exportações. Somando os embarques ao exterior, as vendas totais do setor de motos a combustão alcançaram 10,1724 milhões de unidades de janeiro a junho, um aumento de 12,44% sobre um ano antes. Em outras palavras, os fabricantes chineses vendem agora cerca de quatro motos no exterior para cada uma vendida no mercado interno, uma proporção que teria parecido implausível nos anos de boom doméstico.
O salto das exportações reflete uma mudança mais ampla na indústria chinesa. Marcas nacionais que antes competiam principalmente por preço passaram anos desenvolvendo tecnologia de motores, design e controle de qualidade, e agora avançam pelo Sudeste Asiático, América Latina, África e partes da Europa. Muitos desses mercados têm populações grandes e jovens e transporte público fraco fora das grandes cidades, o que torna os veículos de duas rodas acessíveis uma necessidade prática, não um hobby.
No mercado interno, o quadro é mais complicado. As grandes cidades ainda restringem onde as motos podem circular, e a ascensão de scooters elétricas e bicicletas compartilhadas tomou uma parte dos deslocamentos curtos. O mercado interno que resta está cada vez mais voltado para o lazer, modelos premium e áreas rurais, onde a motocicleta continua sendo o veículo mais útil que uma família pode ter.
A recuperação não é uniforme. O crescimento no mercado interno é tênue, e o setor segue muito fragmentado, com muitos fabricantes pequenos disputando margens apertadas. A demanda de exportação também pode ser volátil, moldada por oscilações cambiais, custos de frete e pela saúde das economias compradoras. Um único semestre forte não desfaz quase duas décadas de declínio.
Ainda assim, a direção importa. Uma categoria amplamente vista como estruturalmente condenada mostra que indústrias manufatureiras maduras podem encontrar nova vida olhando para fora. Os fabricantes chineses de motos passaram os últimos 20 anos sendo descartados; os próximos anos dirão se conseguem transformar um boom de exportações em uma presença global duradoura de marca.
Para leitores globais, a história lembra que a base industrial da China é mais ampla do que as manchetes sobre veículos elétricos e baterias. As motocicletas, como antes os eletrodomésticos e os painéis solares, são outro setor em que empresas chinesas construíram escala discretamente e agora competem no exterior.