Fuyang: a pequena cidade que constrói um nó ferroviário em 'caractere arroz'

A maioria das cidades chinesas sonha com uma única estação ferroviária nova. Fuyang, uma cidade-prefeitura no noroeste de Anhui com cerca de oito milhões de habitantes, almeja algo muito mais grandioso: oito direções de trilhos convergindo em um único ponto. No jargão do planejamento chinês, esse padrão é chamado de nó em ‘caractere arroz’, em referência ao caractere 米, cujos traços irradiam em todas as direções.
A candidatura de Fuyang avançou um passo neste mês. O ministério do Meio Ambiente da China publicou a avaliação de impacto ambiental da linha de alta velocidade Fuyang–Huanggang, um marco processual que abre caminho para o projeto entrar em sua fase final antes da construção. O traçado seguiria a sudoeste de Fuyang por partes das províncias de Anhui, Henan e Hubei, ligando uma série de cidades que há muito ficaram à margem das linhas-tronco principais.
A linha não é um ramal menor. Ela forma um segmento-chave do corredor Pequim–Hong Kong (Taiwan), uma das oito artérias norte-sul e oito leste-oeste do plano nacional de alta velocidade da China. Fuyang já fica na linha Pequim–Hong Kong inaugurada em 2019, e outras conexões estão planejadas ou em andamento para Hefei, Zhengzhou e outros centros regionais.
O que torna Fuyang incomum é o momento. Durante anos, a corrida para construir um nó em ‘caractere arroz’ foi travada quase inteiramente entre capitais provinciais — cidades como Zhengzhou, Hefei, Changsha e Xi’an, cada uma gastando pesadamente para se tornar o cruzamento dominante de sua região. A competição é cara e, até agora, inconclusiva. Qual cidade realmente merece o título ainda é disputado.
Agora cidades menores estão entrando na disputa. Fuyang não é uma capital provincial nem uma cidade costeira em expansão. É um centro agrícola e industrial que, por décadas, exportou trabalhadores para o litoral. Melhores ligações ferroviárias mudam essa equação: reduzem o tempo de viagem até as capitais provinciais e os mercados de trabalho costeiros, e tornam prático para fábricas e empresas de logística instalar operações no interior, onde terra e mão de obra custam menos.
Essa lógica já transformou outros nós do interior. Zhengzhou, outrora uma modesta cidade ferroviária, converteu sua posição na rede nacional em um polo de carga aérea e fabricação eletrônica. Hefei, a algumas horas a leste de Fuyang, usou sua base ferroviária e de pesquisa para atrair as indústrias de displays e veículos elétricos. Os planejadores de Fuyang claramente esperam uma versão menor da mesma história.
A construção ainda exige aprovações finais, e o cronograma para o início das obras não foi anunciado. Mas a revisão ambiental é o ponto em que uma linha deixa de ser um desenho e começa a ser um projeto. Se Fuyang conseguir, será a primeira cidade-prefeitura comum da China a montar um nó ferroviário completo de oito direções — uma cidade pequena, na prática, ensinando às grandes que o mapa nunca está terminado.