Estrelas chinesas admitem que não há mais papéis para interpretar

Durante duas décadas, ser uma celebridade chinesa parecia o emprego mais seguro do país: câmeras em toda parte, contratos publicitários e fãs dispostos a segui-lo de drama em drama. Em 2026, essa certeza rachou. Uma série de matérias de entretenimento publicadas nesta semana descreve um setor em que nomes conhecidos pedem trabalho abertamente e alguns já saíram de cena.
A imagem mais marcante é a de atores voltando a ofícios comuns. Um relato amplamente compartilhado descreve um intérprete que construiu carreira interpretando chefões corporativos autoritários na tela e agora vende legumes em sua aldeia natal. Outros passaram a usar aparições públicas e eventos para anunciar, meio brincando, que não têm nada para filmar. O tom nas redes mistura Schadenfreude e inquietação: se os que estão no topo estão ociosos, o que acontece com os milhares de técnicos, figurinistas e extras abaixo deles?
As razões não são misteriosas. A produção chinesa de séries e filmes vem se concentrando em menos projetos e maiores, enquanto o dinheiro que antes fluía para séries de orçamento médio encolheu. Ao mesmo tempo, os dramas curtos — séries verticais, feitas para o celular, com poucos minutos por episódio — absorveram tanto público quanto orçamentos, mas pagam muito menos aos atores e raramente constroem o tipo de fama que sustenta uma carreira mainstream. Muitas estrelas agora disputam um número cada vez menor de papéis de prestígio.
A idade torna tudo mais difícil. Atrizes na casa dos quarenta relatam receber apenas convites para papéis de mãe e de vilã, enquanto atores da mesma idade ainda conseguem protagonistas românticos. Yang Mi, uma das estrelas mais rentáveis da China, provocou recentemente reações divididas nas redes após a circulação de uma série de fotos de moda sensuais, com alguns comentaristas perguntando se uma mulher de quarenta deveria posar assim. O debate era nominalmente sobre gosto, mas na verdade tratava de como a janela de visibilidade continua estreita para as mulheres na indústria.
Outros descobrem que o próprio trabalho mudou. Zhang Ziyi, que recebeu uma homenagem pelo conjunto da obra em um festival de cinema francês neste outono, disse a uma plateia universitária em Hong Kong que já não consegue lidar com cenas de violência emocional como antes, descrevendo dormência nos membros e dificuldades respiratórias após uma filmagem difícil que a obrigou a respirar dentro de um saco plástico para se recuperar. É uma confissão incomumente franca para uma estrela de sua estatura, e chega a uma indústria que vem repensando como trata os intérpretes no set.
A própria tela também está mudando. As séries de formato curto estão ficando mais longas à medida que as plataformas buscam receita publicitária, e estúdios de animação experimentam quadrinhos gerados por IA e curtas animados para cortar custos. Isso pressiona ainda mais o trabalho com atores reais, que exige cenários, equipes e cronogramas. Os atores competem não só entre si, mas com métodos de produção mais baratos e rápidos.
O que emerge é um setor em transição, não em colapso. As estrelas ainda ganham somas extraordinárias no topo, e as séries de sucesso continuam dominando as conversas. Mas o meio — o ator de ofício confiável, com um fluxo constante de papéis coadjuvantes — está minguando, e quem está nele é justamente quem agora procura visivelmente a próxima oportunidade.
Para o público global, a lição é que a máquina de entretenimento chinesa não cresce mais no piloto automático. O próximo sinal a observar é se as grandes plataformas anunciarão uma nova leva de dramas de orçamento médio para 2027 ou continuarão canalizando dinheiro para conteúdos de formato curto que precisam de menos rostos famosos.