Entidade do futebol espanhol rastreia os insultos que os torcedores gritam das arquibancadas

Toda semana, a principal liga de futebol da Espanha envia um documento discreto, mas incisivo, a dois órgãos espanhóis: a comissão disciplinar da federação e a comissão estatal antiviolência. Dentro dele estão os cantos que os torcedores gritaram das arquibancadas — aqueles considerados insultantes ou suscetíveis de incitar violência. A lista desta semana, protocolada após a oitava rodada do campeonato, incluía um canto da torcida da Real Sociedad direcionado a Vinicius Junior, o atacante brasileiro que joga no Real Madrid. Segundo o diário esportivo espanhol Mundo Deportivo, torcedores da casa na partida da Real Sociedad contra o Deportivo La Coruña chamaram Vinicius de “idiota”. Ele nem sequer estava jogando naquela partida.
Esse detalhe importa. As autoridades do futebol espanhol passaram anos tentando construir um sistema que puna o abuso mesmo quando o alvo está ausente. A lógica é simples: se um canto nomeia um jogador, o dano recai sobre esse jogador e sobre cada torcedor que compartilha sua origem, esteja ele em campo ou não. Os relatórios semanais da liga são o primeiro passo. Eles reúnem provas, sinalizam o setor do estádio onde ocorreu a ofensa e entregam o processo aos órgãos que podem agir.
As ferramentas disponíveis são limitadas, mas reais. As comissões disciplinares podem multar clubes, fechar o setor de onde partiu o canto por um número determinado de partidas ou emitir advertências. A comissão antiviolência pode encaminhar casos ao Ministério Público. Os clubes, por sua vez, podem banir torcedores individualmente, embora identificá-los em uma arquibancada lotada seja difícil. Os estádios espanhóis ampliaram a cobertura de câmeras e os conjuntos de microfones nas últimas temporadas, o que facilitou localizar onde um canto começa.
Vinicius tem sido o alvo mais frequente no futebol espanhol. Cantos imitando macacos, músicas insultantes e gestos o seguiram por estádios de todo o país, e vários casos foram parar na Justiça. O próprio jogador falou sobre como o abuso o afeta, e sua decisão de continuar se pronunciando publicamente colocou o tema no topo da agenda. A La Liga também mudou a forma de noticiar incidentes, nomeando os clubes e os setores envolvidos em vez de emitir declarações vagas.
A Real Sociedad não é o primeiro clube a aparecer nesses relatórios, e não será o último. O padrão é conhecido: um pequeno grupo começa um canto, outros se juntam, e o clube depois diz que não pode controlar todas as vozes. Críticos argumentam que as punições são brandas demais e lentas demais para mudar comportamentos. Defensores do sistema dizem que o objetivo não é apenas a punição, mas o registro — construir um histórico documental que torne mais difícil desculpar os reincidentes.
Há uma mudança mais ampla em curso. O futebol europeu passou de tratar o abuso como um ruído de fundo lamentável a tratá-lo como uma questão de segurança e integridade, na mesma lista que sinalizadores, invasões de campo e distúrbios nas arquibancadas. As ligas agora compartilham dados com a polícia e entre si. Patrocinadores, receosos de serem associados a cenas tóxicas, começaram a perguntar aos clubes o que estão fazendo a respeito.
Para os torcedores que observam de fora da Espanha, os relatórios semanais são um lembrete de que as vozes mais altas em um estádio nem sempre são anônimas. Alguém as anota, nomeia o clube e envia o processo adiante. Se isso muda comportamentos ainda é uma questão em aberto, mas a papelada deixou de ser opcional.